quarta-feira, 27 de junho de 2007

Amar em Português

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.
Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.
Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.
Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.
Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.
Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente.
Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus!
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que, as condições eram estas:
Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fernanda Braga da Cruz

quarta-feira, 20 de junho de 2007

segunda-feira, 18 de junho de 2007

domingo, 10 de junho de 2007

Die Toten Hosen - Bonnie & Clyde



Die Toten Hosen - Bonnie & Clyde

Hoje, mais do que nunca, tenho razões para te agradecer.
Para o mr. Barrow da gravata encarnada como o seu clube do coração.
Tudo o resto tu já sabes.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Significa que...

O filho que muitas vezes não limpa o quarto e está a ver televisão,
* significa que ....... está em casa.

A desordem que tenho que limpar depois de uma festa,
*significa que ...... estivemos rodeados de familiares e amigos.

As roupas que me estão apertadas,
* significa que .... tenho mais do que o suficiente para comer.

O trabalho que tenho a limpar a casa,
*significa que ... a tenho.

As queixas que escuto acerca do governo,
*significa que .... tenho liberdade de expressão.

Não encontro estacionamento,
* significa que ..... tenho carro.

Os gritos das crianças,
* significa que .... posso ouvir.

O cansaço no final do dia,
*significa que ..... posso trabalhar.

O despertador que me acorda todas as manhãs,
*significa que .... estou vivo.

Finalmente pela quantidade de mensagens que recebo,
*significa que ..... tenho amigos a pensar em mim.

QUANDO PENSARES QUE A VIDA TE CORRE MAL LÊ OUTRA VEZ ESTA MENSAGEM

Vivemos num planeta limitado



http://www.breathingearth.net/

Coloca o rato sobre o país que desejares.
Audio on.
O tempo não pára!

terça-feira, 29 de maio de 2007

A primeira


Um último sopro, um ano depois. Um processo lento mas saudável. Cresçamos.

E ao soprares a última das velas, deixas cair a cabeça e enroscas o teu cabelo de azeviche no meu peito nu. Lá fora, indiferentes ao milagre que se passou no teu quarto, aceleram os carros na autoestrada. No teu rosto, iluminado pela luz amarela dos candeeiros, desenha-se um sorriso cândido e puro. Dorme bem vera.


quarta-feira, 18 de abril de 2007

E depois sou eu que falo demais…

O Tojó tocou à campainha. Sara sentiu um calafrio, algo no peito, uma pulsação mais forte que lhe dizia que alguma coisa se passava, se passaria. Sem dar grande importância à premonição, abriu a porta e deixou-o entrar.

Durante mais de uma hora, ficaram sentados lado a lado na mesa da cozinha. Discutiam arduamente a matéria em questão, mas nem por isso o trabalho de português avançava.

- Poesia é uma seca. – afirmou Tojó. – Se ainda déssemos Bocage ou uma cena do género. Camões até tem partes porreiras n’Os Lusíadas, mas essas damos nas aulas. Agora mandam-nos discutir velhos rezingões e tretas destas.

Tojó levanta-se de repente da cadeira e pronuncia dramatizando:

- Vão, vão filhos da puta, vão morrer longe que nós ficamos aqui na miséria. Vão, que têm mais sorte do que juízo. Vão lá foder com essas ninfas e fornicar com deusas que nós ficamos por cá neste país atulhado de merda nas valetas e de cheiro a peixe cru. Arre.

Tojo estendeu-se derreado no sofá.

Sara não conteve o riso. Apesar de todo o teatralismo do amigo, tinha que lhe dar razão. Afinal, em tantos séculos, as coisas ainda não tinham mudado assim tanto.

- Sim, Tojó, tens toda a razão, mas não podemos pôr isso no trabalho. O pessoal até aplaudia e tal mas não me parece que a stôra ache muita piada.

- Um copo de água se faz favor, que este velho está para morrer.

- És demais, rapaz. – e foi-lhe buscar o tal copo de água. Ao abrir o armário por cima do fogão para tirar o copo, a tal sensação voltou a ataca-lhe fortemente o coração. – Foi deste treatrinho. – pensou.

Mas ao estender-lhe o copo, Tojó pegou-lhe no pulso e fez com que ela se sentasse ao seu lado.

- O que é que estás a fazer? – perguntou-lhe.

- Não penses, Sara. Deixa-te ir.

Beijou-lhe o pescoço e afastando-lhe os caracóis rodeou de pequenos beijos todos os milímetros quadrados da sua orelha esquerda. Sara ainda lhe pegou nas mãos para as afastar dos seus seios, porém deixou-se efectivamente ir.

Estendidos no sofá preto da sala, Tojó afastava-lhe agora as pernas e deitou-se em cima dela. Entre beijos daqueles que não se vêm no cinema porque de técnico nada têm, lá conseguiu meter a mão por dentro da blusa. Ela mordeu-lhe a língua em sinal de desagrado.

- Beijas mesmo bem, linda.

- Não me provoques Tojó! Mordo-te novamente.

E entre um sorriso malandro lá lhe respondeu:

- É isso que eu quero.

E fintando-se mutuamente por instantes, Sara apercebeu-se que já nada havia a perder. O mal já estava começado, mais valia levar aquilo até ao fim.

Sara segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e deu-lhe um beijo. E naquele entretém de olhares, já ele tinha acabado por conseguir desapertar-lhe a blusa com as mãos que mantinha perdidas no peito dela.

- O que estás a fazer? Não afastes as tuas mãos das minhas.

- Podes ficar com as mãos.

Deram as mãos. Mas ele não parou. Desceu até ao peito e apoderou-se dos seios dela. Beijou-os intensamente e ela apertou-lhe as mãos.

- O que estás a fazer? – perguntou-lhe novamente.

- Falas demais, sabias?

- E tu matas-me do coração…

Conseguiu largar-se das mãos delas e puxou-lhe os joelhos para cima, contra as suas coxas.

- Sara, não quero fazer nada que tu também não queiras. Gosto muito de ti. És linda, sabias? E quero-te, quero-te muito. Mas és tu quem decide.

Esboçou um daqueles sorrisos encantadores que a definem e segredou-lhe como se lhe contasse o mistério da origem do mundo:

- E depois sou eu que falo demais…

sábado, 14 de abril de 2007

Mar Português [Fernando Pessoa]


Se a alma não é pequena...

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

...tudo vale a pena!

Infante [Fernando Pessoa]

Para todos os heróicos sonhadores que resistem às forças do conformismo!

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem